Como criar uma rotina de sessão mais lúdica e afetiva com crianças
Nota: Este conteúdo é informativo e não substitui formação especializada, supervisão clínica ou avaliação profissional individualizada. A abordagem terapêutica com crianças deve respeitar princípios éticos e técnicos da psicologia.
Em psicologia infantil, a forma como estruturamos a sessão pode influenciar profundamente a qualidade da relação terapêutica e a eficácia do processo. Com crianças, o jogo não é uma distração — é linguagem, é metáfora, é vínculo.
Criar uma rotina de sessão que seja lúdica e afetiva permite que a criança se expresse com mais autenticidade, se sinta segura e, sobretudo, compreendida. É nesse espaço simbólico que ela organiza o que sente e dá sentido ao que vive.
Os 5 elementos-chave de uma sessão lúdica e afetiva
1. Acolhimento com previsibilidade emocional
A forma como a sessão começa diz muito sobre o tom da relação terapêutica. Crianças não chegam ao consultório com a mesma prontidão emocional de um adulto. Muitas vezes, carregam o peso do dia, da escola, das regras, das exigências — e é justamente no início da sessão que o terapeuta pode oferecer um contraponto emocional: previsível, seguro e humano.
Criar um ritual inicial, ainda que simples, oferece um “chão” onde a criança pode pousar emocionalmente. Isto pode ser um jogo breve, uma música, um gesto simbólico ou o uso de materiais visuais — o importante é que seja constante, significativo e coerente com a idade e a personalidade da criança.
Este tipo de previsibilidade estimula a autorregulação, aumenta a sensação de segurança e fortalece o vínculo terapêutico — três pilares essenciais para o sucesso clínico com crianças (Bruce Perry, Daniel Siegel).
Exemplos práticos:
- “Como está o teu tempo hoje?” — a criança escolhe uma imagem de nuvem, sol, tempestade, etc.
- Um “passaporte emocional” que a criança preenche ao chegar.
- Um baralho de cartas com expressões faciais ou frases para nomear o estado interno.
2. Ambiente como co-terapeuta
Em psicologia infantil, o setting não é apenas pano de fundo — é um agente terapêutico. O espaço físico comunica segurança, liberdade, limites e até afeto. Um consultório preparado para acolher o brincar é aquele que respeita a natureza simbólica da criança, oferecendo estímulos cuidadosamente pensados, mas com liberdade de acesso e uso.
Evitar excesso de estímulos, ruídos ou desorganização visual é tão importante quanto oferecer materiais diversos. O ambiente deve permitir que a criança “se aproprie” do espaço de forma progressiva, sentindo-se autorizada a brincar, criar e, por vezes, desorganizar-se para poder reorganizar-se emocionalmente.
Ambientes responsivos facilitam o engajamento espontâneo e ajudam a criança a sair do modo defensivo, comum em situações de exposição emocional.
Dicas práticas:
- Materiais organizados por tipo de jogo (expressão, construção, fantasia, competências emocionais).
- Paleta de cores neutras com detalhes afetivos e acessíveis.
- Espaços “nichados”: uma zona de escuta, uma de criação, uma de movimento.
3. Brincar com intenção clínica
Brincar não é fazer tempo passar. É intervir. No universo infantil, a brincadeira não é “apenas” lúdica — ela é linguagem, narrativa interna, reorganização psíquica, e, por vezes, elaboração de traumas. O papel do terapeuta é ler simbolicamente o que se passa ali e intervir sem quebrar a espontaneidade do jogo.
Por isso, utilizar recursos lúdicos com intencionalidade terapêutica exige do profissional uma escuta fina, um olhar clínico e um plano claro. Cada recurso — seja um baralho de competências, um jogo simbólico de papéis ou uma construção com blocos — precisa estar alinhado ao objetivo da sessão.
Questões a considerar:
- Que competência emocional ou social estou a trabalhar?
- O jogo permite à criança representar-se simbolicamente?
- A proposta respeita a fase de desenvolvimento e a capacidade simbólica da criança?
🧩 Baralhos como os da Magic Decks permitem trabalhar competências como empatia, coragem ou atenção plena de forma acessível, lúdica e com linguagem adaptada ao universo infantil.
Exemplo prático:
Uma criança com dificuldades na gestão da raiva pode beneficiar de um jogo que pratique a competência da paciência — como uma carta da Magic Decks que propõe um exercício simbólico.
4. Flexibilidade no plano e escuta ativa
Por mais estruturada que esteja a sessão, o foco deve estar sempre no que emerge da criança. As sessões com crianças nem sempre seguem o plano definido — e isso não representa falha, mas sim oportunidade. Flexibilidade é sinal de sensibilidade clínica, não de desorganização.
É essencial saber ajustar o ritmo, acolher resistências, e permitir que a criança traga conteúdos fora do que foi planeado. A escuta ativa, neste contexto, vai além das palavras — ela observa gestos, brincadeiras evitadas, silêncios significativos, repetições simbólicas.
Como dizia Winnicott, o terapeuta é o facilitador de um espaço potencial. E esse espaço é moldado pela liberdade da criança de ser, sem expectativa de performance.
Como aplicar:
- Validar o “não querer”: se a criança evita um jogo, pode haver ali uma resistência relevante.
- Reorganizar a sessão a partir do humor ou estado emocional trazido pela criança.
- Usar elementos espontâneos como gancho para trabalhar o objetivo clínico (ex: uma história inventada que revela angústias reais).
5. Encerramento com integração emocional
O fecho da sessão é tão terapêutico quanto o seu início. Encerrar de forma abrupta ou meramente “logística” (avisar a hora, dizer adeus) pode gerar insegurança, especialmente em crianças com dificuldades de separação ou regulação emocional.
Uma boa prática é criar rituais de encerramento que promovam integração emocional — ou seja, dar sentido ao que foi vivido, permitir que a criança leve algo da sessão (um símbolo, uma frase, uma reflexão) e que perceba que há continuidade no processo.
O encerramento ajuda a criança a “fechar a porta” interna da sessão sem sentir-se abandonada ou confusa. Ele reforça a previsibilidade e a confiança na continuidade do vínculo.
Exemplos eficazes:
- “O que levas daqui hoje?” – a criança escolhe um cartão com uma competência que trabalhou.
- Um momento de respiração ou relaxamento para transição.
- Um pequeno “diário gráfico” que a criança completa no final de cada sessão com desenhos ou colagens.
Em síntese
A construção de uma rotina de sessão lúdica e afetiva com crianças não é um adereço estético, mas um fundamento ético e clínico. É neste equilíbrio entre estrutura e liberdade, intenção e espontaneidade, que se dá o verdadeiro trabalho terapêutico.
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